Uma da manhã. Entrei em casa e como é hábito fechei a porta e tranquei-a com as voltas todas. É um gesto automático. Tirei o casaco, o cachecol e fiz um chá. Calhou ser aquele que tanto gostas.
Bebi-o em pequenos golos, cuidadosamente para não me queimar. Senti o suave toque percorrer o meu corpo e o calor a invadir-me.
Num impulso vesti o casaco e fui à varanda. Está uma noite de Inverno linda. Não chove, não está vento, está apenas frio. Muito frio. Voltei para dentro e deitei-me. Antes de apagar a luz olhei para o telemóvel uma última vez à tua procura. Nada.
Senti qualquer coisa vibrar. O telemóvel. Eras tu. Por momentos hesitei se devia atender ou não.
Tive medo da tua voz estar diferente, de não te reconhecer. Mas caí em mim. Sentei-me na cama e carreguei no botão:
- "Estou?"
- "Acordei-te?"
A tua voz é igual. Em nada mudou.
- "Sim. Normalmente às cinco e meia da manhã está-se a dormir. Só tu para me ligares a esta hora. Aí é menos uma hora, mas mesmo assim."
- "Minha querida eu não estou em Portugal."
- "Para que parte do mundo foste tu desta vez?"
- "Isabel, queres vestir qualquer coisa e vir ter comigo aqui ao carro? Estou parado mesmo em frente ao teu prédio."
- "O quê? Não acredito."
- "Queres que toque à campainha?"
De ti esperava tudo menos que viesses ter comigo. Não me espantava que estivesses em Nova Iorque, no Rio de Janeiro ou na Cidade do Cabo e te lembrasses de me telefonar sem ter em conta o fuso horário. Sempre foste homem de fugir de ti próprio. Eu sabia quando te disse que vinha viver para aqui. Nunca te pedi nada. Achei que não tinha esse direito. Por isso separamo-nos e fizemos um pacto: eras sempre tu a dar notícias, eu só te diria alguma coisa se fosse muito importante. Esporadicamente ligavas. Mas nunca ao longo destes anos vieste ter comigo. Viajaste por todo o mundo, mas esqueceste esta cidade. Esqueceste este universo fechado num pequeno espaço. Esqueceste Paris.
- "Eu desço."
Vesti-me num instante. Voei pela casa e meti-me no elevador o mais rápido que pude.
Procurei o teu carro com o olhar. Lá estavas tu. Ao contrário da tua voz, envelheceste. Não és o único. O tempo passou por nós sem dó nem piedade. Mas continuas bonito. Sempre o foste. Sempre foste o galã das noites de Lisboa e o que todas queriam. Sempre estiveste rodeado de pessoas por todo o lado. Estavas sempre acompanhado. Agora ali sentado pareceste-me tão sozinho, tão abandonado como uma criança perdida. Percebo porque me vieste ver. Precisas de te reencontrar e para isso precisas de quem te conheça. Quem melhor do que eu?
Corri até ao carro, abri a porta e sentei-me a teu lado. Olhavas o horizonte. Silêncio.... Lentamente viraste-te para mim, aproximaste-te, deste-me um beijo na testa e disseste:
-"Finalmente ganhei coragem. Sim Isabel, admito: sou um cobarde por nunca te ter vindo ver."
Não resisti e abracei-te. E de repente, senti uma lágrima escorrer pela tua pele. Nunca mais me esqueci desse momento. Nunca te tinha visto chorar.
(To be continued)
2 comentários:
A tua escrita arrepia-me. Tens um dom, um grande dom. Tudo o que escreves e o sentimento com que escreves é nos atribuido com uma força enorme, como se lá estivessemos, a sentir tudo o que sentes, a isto chama-se ser um bom escritor. :D Vais ter futuro, eu vou ser a manager!
Amo-te tanto best
Tou mortinha pela segunda parte :)
Beijinho*
Enviar um comentário