domingo, 6 de setembro de 2009

Madrugada (II)

Sete da manhã. Estivemos abraçados em silêncio durante muito tempo. Quando nos afastámos nem tinha noção das horas. Limpaste as lágrimas e disseste:
- "Vamos passear?"
- "Está muito frio."
- "Quero ver Paris. Quero ver o nascer do sol em Paris. Quero ver o nascer do sol contigo."
Fiquei sem saber o que dizer. Por um lado tenho saudades tuas. Por outro sinto que o que tinhamos nunca acabou. Ficou apenas escondido. Agora que nos vimos reacendeu-se qualquer coisa que eu pensava já não existir. Mas não te posso falhar. Não agora que precisas de mim. A nossa amizade é mais forte que os meus medos de me magoar.
- "Está bem."
- "Sei que hesitaste."
- "Admito. E não me perguntes porquê porque nem eu própria sei. Ainda não consegui perceber o que estás aqui a fazer, porque me vieste procurar ou a razão de teres admitido que és um cobarde por nunca nos termos visto desde aquele dia. Ainda não sei se isto é real."
- "Claro que é real Isabel. Não hesites em vir comigo. Eu mudei. Preciso de te contar o porquê. Por isso é que quero ir passear."
- "Então vamos."
Ligaste o carro. Começou a tocar: Dance me to your beaty with a burning violin, dance me through the panic till I'm gathered safely in, touch me with your naked hand or touch me with your glove...
- "Trouxe este cd para ti, mas não resisti em ouvi-lo antes de te dar."
- "Não precisavas de me trazer nada. Estares aqui ja é suficiente."
- "Não Isabelinha, sabes que não é."
- "Não me chames isso. Já ninguém me chama isso."
- "Eu chamo e apesar de ter sido um estúpido e tudo o que me quiseres chamar, ainda sou alguém."
Paraste o carro. Saíste, abriste-me a porta e agarraste-me pelas mãos.
- "O que estás a fazer?"
- "Danças comigo?"
- "Aqui? No meio da rua?"
- "Sim! Anda lá..."
E dançámos. Senti-me feliz como há muito não me sentia e aquele je ne sais quoi de que duvidara desapareceu. Assim que puseste a mão na minha cintura e sussuraste ao meu ouvido - Dance me to the end of love - esvaíu-se em sorrisos e desfez-se em beijos esquecidos.
De repente, desligaste a música, trancaste o carro e puxaste-me. Começámos a correr sem rumo. Ao longe vi a Torre Eiffel e à medida que nos fomos aproximando comecei a ver o reflexo da lua na àgua. O Sena brilhava. Parámos numa ponte e inclinaste-te sobre o rio.
- "Sabes Isabel, quando me disseste que vinhas morar para Paris o meu mundo desabou. Não te disse nada. Nem eu sabia o que estava a sentir nessa altura. Só me apercebi disso há muito pouco tempo. Deixei-te escapar e por isso nunca me perdoei - O sol começava a despontar. - Herdei a empresa do meu pai. Quando ele morreu concentrei-me em ser o melhor, em conseguir preencher os seus feitos. Orgulho-me de poder dizer que consegui, mas em troca perdi muito de mim.
Nunca cheguei a casar, para desgosto da minha mãe que insiste sempre que pode."
Olhei o céu. Eu sabia que nunca te tinhas casado. Sempre tive essa esperança.
- "Tive outras relações, tal como imagino que tu também tenhas tido, mas nenhuma como a nossa. Vi os meus irmãos casarem.Vi todos os meus amigos felizes, a encontrarem o amor. Chamam-me o playboy. O que eles não sabem é que o que eles tanto procuraram já eu tinha encontrado contigo."
Deste um passo na minha direcção. Olhaste-me com os teus olhos negros como um corvo.
- "Lembras-te da minha irmã Sofia?"
- "Lembro claro! Ainda era uma criança quando vim para aqui."
- "Foi ela que me fez mudar. Está doente. Tem SIDA."
Foi como se ficásse muda. O frio que sentia intensificou-se. Então era isso que te fazia chorar.
- "Só te posso dizer que estou aqui para ti e que sei que não há palavras que te possam reconfortar o suficiente."
- "Enganas-te querida. O facto da morte da Sofia estar tão perto fez-me perceber que falhei em quase toda a minha vida. Sabes o que ela me pediu?"
- "Não."
- ""Vive por mim." disse ela. E isso eu não posso fazer sem ti. Por isso pergunto-te: Ainda vou a tempo?"
Olhei agora para o rio. É a minha vez.

(To be continued)


1 comentário:

A Lisboeta disse...

Estas descrições de Paris meu Deus, acho q vou apanhar um avião e ver como aquilo é. Sim, porque certas senhoras já lá estiveram, não é? (cof...cof...)
Muito bom o texto. Mortinha pela próxima parte =P

Beijinhos

P.S- Eu sou V.I.P neste blog, pá! Sou um "membro convidado", hem? Espectáculo!