Oito e meia da manhã. O sol já brilha e Paris já funciona a todo o vapor. Encostada à ponte virei-me para o rio. Agora sou eu que tenho de confessar o que se passou durante estes anos. Questiono-me se o que te vou dizer se poderá comparar com a notícia que acabaste de me dar. E ainda tenho de te responder. Serei capaz?
- "Quando recebi a proposta de vir trabalhar para aqui pensei muito antes de a aceitar. Era a minha vida, os meus amigos, a minha família e tu. Custou-me muito deixar tudo. Sabia que nunca virias comigo e nunca me sentiria bem se te sentisses obrigado a fazê-lo. Por isso, decidi anunciar-te a minha decisão, sem sequer colocar hipóteses ou dúvidas."
- "Sempre foste pragmática."
- "Sim, tens razão. Mas tu guardavas tudo para ti. Sabes que se te tivesses aberto comigo eu tinha ficado contigo. Nunca teria hesitado. Naquele dia em minha casa foste tão frio comigo. Parecias feito de gelo. Nada do que eu disse e todos os carinhos que te dei pela última vez não te fizeram mudar. Quase nem olhaste para mim. Os teus olhos fugiam dos meus. Senti que se se cruzassem não seria possível estancar a dor que deles saíriam. Nunca mais me esqueço do nosso último diálogo. Estavamos dentro do carro à frente de tua casa. Perguntei-te se me amavas mas calaste-te. Esse silêncio magoou-me tanto. Finalmente disseste: Está a chover. Ao que eu respondi: Está a chover é dentro de mim. Foi a última vez que te vi até hoje."
De repente, senti a tua mão na minha.
- "Desculpa. Só te posso dizer desculpa."
- "Sabes, Paris ensinou-me a perdoar. Aprendi que no amor comete-se erros e que o tempo os cura. Apesar desta nossa dolorosa separação continuas a ser o amor da minha vida. Nunca perdemos o contacto total. Mesmo quando estive com outras pessoas olhava para o telemóvel todas as noites sem falta em busca de um sinal teu. Fiz disso um hábito.
E agora voltaste. Deixaste-me sem forças para pensar, sem raciocinio possível. Fiquei sem palavras com esta surpresa. Por isso, digo-te sinceramente: não sei. Não consigo saber se ainda vens a tempo.
Virei-me para ti. Limpaste a lágrima que escorria nos meus lábios.
- "Só te vou dizer mais uma coisa Isabel. Conhecer-te foi a melhor coisa que me aconteceu. Ensinaste-me tudo."
- "Deixa-me pensar. Preciso de estar sózinha."
- "Queres que te leve a casa?"
- "Não. Deixa-me ir."
Virei-te as costas e fui andando em direcção ao Louvre. Olhei para trás e ainda lá estavas. Parado a olhar o rio. Continuei em frente. Senti o meu telemóvel vibrar enquanto descia as escadas do metro. Eras tu. Outra vez.
- "Estou em tua casa às sete e meia para te levar a jantar."
Desligaste. No fundo eu sabia que as surpresas ainda não tinham acabado.
Tenho saudades tuas. Sinto falta das noites no Miradouro da Senhora do Monte. Dos passeios infinitos pelo Restelo. Dos lanches na Versailles onde tens conta aberta. Das danças em tua casa. Das mensagens que me mandavas depois de me levares a casa a dizeres que fazias tudo outra vez. Meu amor, tenho saudades tuas. Tenho saudades de nós.
Cheguei a casa e fui direita para a cama. Descanso. Paz.
Quando finalmente acordei fiz um banho de imersão. Entrei e senti o passado a sair de mim. Já tomei a minha decisão.
Quando chegaste disse-te para subires.
- "Estás linda Isabel."
- "Obrigado, tu também. Como sempre."
- "Vamos jantar?"
- "Vamos, mas é aqui."
- "Aqui?"
- "Não queres ir a um restaurante?"
- "Não e primeiro que tudo quero que venhas ali à varanda comigo."
Senti os teus passos atrás de mim. Abri a janela e saí. Está frio. Muito frio.
- "Isto que vês aqui", disse mostrando a vista da cidade, "é a minha vida agora. Isto sou eu."
- " Eu sei e é por isso que venho viver para cá."
- "Estás a falar a sério? Não brinques comigo."
- "Nunca falei tão a sério na minha vida. Tenho de fazer o que devia ter feito antes."
- " E o que é isso?"
Sorriste e aproximaste-te de mim. Enrolaste-me nos teus braços e apertaste-me. Senti a tua respiração tão perto como se fosse fundir com a minha.
- "Amar-te."
Ao fundo as luzes brilhavam iluminando a noite. Ao fundo o Arco do Triunfo. Ao fundo La Concorde. Ao fundo a Place Vendôme. Ao fundo a Torre Eiffel. Ao fundo o Sacré Coeur. Ao fundo Nôtre-Dame. Ao fundo o Sena. Ao fundo a Cidade da Luz. Ao fundo Paris.
(The end.)
1 comentário:
Divino. Eu sabia que iam ficar juntos!
=P Paris, Paris, Paris, Paris.. ai
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