domingo, 14 de setembro de 2008

Memórias

Todos nós temos as nossas lembranças de infância, as nossas fotografias mentais, os flashbacks repentinos que nos fazem voltar atrás na máquina do tempo. 
Esses momentos são repletos de sentimentos que nos revoltam provocando o riso ou a tristeza. Podia dizer que não custa voltar atrás e desenterrar os restos mortais da nossa criancice, mas a verdade é que dói. Magoa olhar para trás e ver que tudo o que fiz e que disse não posso partilhar com quem me acompanhou. É uma tortura perguntarem-me como era, como riamos, como brincavamos e eu não saber responder. No fundo sei, mas não quero. Tudo se transforma num turbilhão de imagens e vozes inexplicaveis. Não consigo exprimir-me, nada sai da minha boca por muito que tente, a minha barriga dá voltas, os meus olhos inundam-se e as minhas mãos tremem. Paraliso. Sinto-me fechada num caixão sem ar para respirar. 
Em público nada acontece, só abano a cabeça e digo "sim, sim" ou "já não me lembro, isso foi há muitos anos", enquanto viajo para o passado. Quando a conversa termina, refugiu-me na casa de banho e choro. Não sei se de felicidade se de tristeza por não poder reviver tudo outra vez. e fazer melhor. Levanto-me do chão e olho-me ao espelho. Convenço-me a mim mesma de que o que está feito não se pode refazer. 
Não me peçam uma confissão pública, não sou capaz de a fazer. Os anos passam, as feridas vão sarando e as cicatrizes ficam marcadas para sempre em nós. Escondidas mas vivas. 


Mariana Costa

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