terça-feira, 23 de setembro de 2008

As conversas que não tivemos

Oiço as ondas. A maré desce. A praia está vazia. Percorro as escadas até sentir o frio nos meus pés. E continuo a cavalgar pela areia até me sentar à beira mar. Olho o céu. Azul, vermelho, cor-de-rosa, laranja... pôr do sol.
Conheço esta praia como a palma das minhas mãos. Cada rocha, cada lugar escondido, cada onda, o lugar melhor para mergulhar, a força da rebentação quando bate nas rochas. Consigo adivinhar a bandeira que vou ver ao virar da esquina quando ainda estou dentro do carro. Sei qual o melhor sitío para pousar a toalha, sei onde batem os raios de sol a cada hora do dia e sei a direcção do vento assim que me dispo. 
Gostava de te conhecer assim também. Gostava que fosses o meu porto de abrigo onde me posso esconder do mundo, onde posso dizer o que me vier à cabeça, onde posso chorar sem que me digam para parar. Mas não me deixas entrar nesse teu mundo onde apenas tu existes, onde não há lugar para mim. E por muito que te peça tu não abres as tuas portas e encarceras cada sentimento. 
Gostava que me tivesses deixado falar, que me tivesses deixado explicar como tudo aconteceu. 
Mas a verdade é que não fui só eu. Se essa tua solidão se tivesse esvanecido tudo teria sido diferente. E enquanto eu tentei recuperar o que estava perdido tu ficaste estatico nessa tua postura inerce como se não houvesse solução. 
Até havia alturas em que tudo parecia estar um paraíso, em que o mundo se tornava surreal e entravamos num sonho. Só que não passava tudo de uma grande ilusão.  Nem uma conversa decente como adultos podiamos ter porque és como uma criança que não pode abordar assuntos que te possam magoar. 
Não me posso aproximar mais não porque não queira mas porque não deixas, e é demais...
Não há mais nada que possa dizer ou fazer para perceberes que preciso de ti por isso deixo-te. 
Vou para a minha praia que conheço de olhos fechados. E que nunca me irá abandonar. Vou para a paz e sossego que não me podes dar.

Apenas gostava de ter conhecido mais que um esboço feito sem esforço que é o que me deixas ver. 


Mariana Costa, na praia do Guincho


sábado, 20 de setembro de 2008

Enfim, que dizer?

A verdade é que passei o dia inteiro no sofá. Pensei 1500 vezes no que fazer, no que ler, no que escrever... e nada me veio à cabeça. Estava oca. 
Sentei-me na minha poltrona e observei a nova disposição do meu quarto. Abri a janela. Ar fresco. Brisa inconsciente, à qual as coisas em redor não devolvem a sensação de existência. A noite ainda agora começou. Está a chover e se há coisa que me enfurece é chuva à noite. Eu sei que a maioria das pessoas prefere que chova de noite, mas não é bom sermos todos diferentes?
As pingas batem no meu estor e "tchanan" parece que estão a cair pedregulhos na minha janela. Se tivesse um sono pesado isso não seria problema de certeza, mas não tenho. Acordo com o mais leve som. Sim, com o mais leve som e o mais leve pensamento. Sou capaz de acordar para escrever um pequeno apontamento no meu companheiro bloco. O pior é que quem me é mais próximo sabe isso e sabe também que não desligo o telemovél à noite. Então, tal como na semana passada, uma certa pessoa decidiu telefonar para ter companhia até conseguir dormir... Parece engraçado? Não é. Deu-me vontade de esganar essa personagem. Na brincadeira claro. Um dia esta história de dormir com o cellphone ligado ainda vai dar muito jeito a quem precisar de alguma coisa urgente a meio da noite. É melhor prevenir que remediar!
Já me disseram: "Não te venhas queixar, quem te manda tê-los ligados?" (sim é que ainda por cima tenho 2).
Recuso-me relutantemente a desliga-los. Sou incapaz. Sabe-se la o que vai acontecer? E se dormir até tarde e alguém precisar de mim de manhã, como hoje? Depois irão agradecer. E eu direi: "Vêm como foi bom estarem ligados?"

E eu sei que isto é conversa da treta, e que não-interessa-nem-ao-menino-jesus, mas tinha a necessidade de me ocupar com alguma coisa, nem que sejam parvoíces. 
Admito: este texto apenas serviu para me entreter.


Mariana Costa

domingo, 14 de setembro de 2008

Memórias

Todos nós temos as nossas lembranças de infância, as nossas fotografias mentais, os flashbacks repentinos que nos fazem voltar atrás na máquina do tempo. 
Esses momentos são repletos de sentimentos que nos revoltam provocando o riso ou a tristeza. Podia dizer que não custa voltar atrás e desenterrar os restos mortais da nossa criancice, mas a verdade é que dói. Magoa olhar para trás e ver que tudo o que fiz e que disse não posso partilhar com quem me acompanhou. É uma tortura perguntarem-me como era, como riamos, como brincavamos e eu não saber responder. No fundo sei, mas não quero. Tudo se transforma num turbilhão de imagens e vozes inexplicaveis. Não consigo exprimir-me, nada sai da minha boca por muito que tente, a minha barriga dá voltas, os meus olhos inundam-se e as minhas mãos tremem. Paraliso. Sinto-me fechada num caixão sem ar para respirar. 
Em público nada acontece, só abano a cabeça e digo "sim, sim" ou "já não me lembro, isso foi há muitos anos", enquanto viajo para o passado. Quando a conversa termina, refugiu-me na casa de banho e choro. Não sei se de felicidade se de tristeza por não poder reviver tudo outra vez. e fazer melhor. Levanto-me do chão e olho-me ao espelho. Convenço-me a mim mesma de que o que está feito não se pode refazer. 
Não me peçam uma confissão pública, não sou capaz de a fazer. Os anos passam, as feridas vão sarando e as cicatrizes ficam marcadas para sempre em nós. Escondidas mas vivas. 


Mariana Costa