Subi os degraus devagarinho. Olhei para cima. Revivi todos os sentimentos desse momento. Foi há 10 anos atrás. Lembro-me como se fosse hoje. Convidaste-me a passar o fim-de-semana contigo aqui, nesta quinta em que o crepusculo é eterno e o som do vento flui e ecoa por todos os cantos do ser humano. Sempre gostei de aqui estar, desde o dia em que me apresentaste a esta magnifica casa, que me apaixonei por ela.
Nesses dias que passamos os dois estavas melancólico e eu não sabia porquê. Não conseguia compreender e isso roia-me por dentro, já há muito tempo. Os desaparecimentos subitos, a falta de notícias durante dias... Enfim, estranhas coisas que se passavam e que eu não era capaz de te questionar, e nem tu capaz de me contar.
Chegamos à quinta numa sexta-feira depois de almoço, foi o tempo de arrumarmos as bagagens e de darmos um mergulho na piscina. Ao fim da tarde, já no pôr-do-sol, puseste uma manta nos meus ombros como se tivesses de me proteger da friagem que começava apresentar a noite. Deste-me a mão e levaste-me por entre as àrvores e plantações até chegarmos a um monte repleto de amores-perfeitos. Sentamo-nos bem la no alto e ficamos em silêncio durante algum tempo. Finalmente, começaste a revelar o segredo que tanto escondias de mim. Senti o coração a palpitar cada vez mais, olhei-te nos olhos e perguntei:
- O que é que se passa?
Entrelaçavas os dedos, esfregavas os braços e não olhavas para mim. Estavas muito nervoso. Por fim, suspiraste, e disseste:
- Estou a morrer.
Continuaste com o olhar preso no horizonte. Conseguia sentir o medo que tinhas de virar a cara e de me ver chorar. De facto, chorei. Depois, limpei as lágrimas e obriguei-te a olhares para mim. Obriguei-te a explicares o que se estava a passar, estavas a morrer com o quê, e principalmente porque não me tinhas contado. Não havia tratamento possível, a doença já estava muito avançada, e o diagnóstico era definitivo. A morte era inevitável.
Voltaste a olhar o horizonte. Levantei-me. De seguida, abraçaste-me e pela primeira vez na minha vida vi-te chorar. Sabia que tinha sido a revelação mais difícil que alguma vez tinhas feito.
Durante esses dias fiz questão de te divertir, trepamos árvores, corremos pelos campos, colhemos fruta, saltamos na piscina. Rimos muito. Tenho certezas absolutas que foram os melhores dias das nossas vidas e nunca os esquecerei.
Voltamos a Lisboa.
Morreste na quarta-feira à noite.
E 10 anos depois aqui estou, de volta a esta quinta que me deixaste no testamento. Durante estes anos não tive coragem de aqui vir, pedi à tua família que fosse mantendo a casa limpa e habitável.
Fechei os olhos e vi o manto branco infinito da ausência. Era a paz dos quietos, dos mudos, dos desfeitos pelo olhar. Ali estavas tu, esperando placidamente a morte, conformado com o destino. Tenho as mãos frias e olhar submerso. Abri as janelas e inspirei o ar rarefeito da decadência do tempo. Vou aspirar o silêncio que se ergue na calmaria. Oiço ainda os teus passos, os murmúrios do teu coração que formam uma melodia arrepiante.
Levaste-me por ruas desconhecidas, por becos obscuros, por lugares sem espaço, por caminhos sem direcção. Tiraste-me toda a razão.
Penso em ti. Não me canso. Continuo a amar-te.
Fizeste-te ruínas e levaste-me contigo. Fiquei pequena demais, para trazer este oceano de amor que cultivo no meu âmago. Esperarei por ti toda a minha vida, como uma criança que espera um autocarro. Os dias são longos, os minutos apressados e os anos compassados. Ainda sozinha nunca vou deixar de te amar, nunca vou deixar de ter um bouquet de amores-perfeitos junto ao piano que tacteavas todos os dias...
Mariana Costa