Com a força de mil sóis a explodir, o teu olhar cruzou o meu e aí soube que era para sempre.
As lágrimas borbulhavam no canto dos meus olhos como se fossem fontes sem fim.
Era suposto não olharmos para trás assim que nos separassemos.
Conheces-me? Lembras-te de quem sou?
Sou aquela que suplicou que agarrasses e trincasses o momento. Sou aquela que te abraçou quando tudo avançava depressa demais e tu não aguentavas. Sou aquela que tirava as pedras do teu caminho, mas fazendo com que pensasses. Sou aquela que te consegue ver numa tarde de nevoeiro cerrado. Sou aquela que sabe o que sentes quando as palavras rodopiam nos teus lábios e dão voltas eternas na tua cabeça. Sou aquela a quem deste todos os sorrisos de uma humanidade que arrastas com a tua sombra.
E nós o que fomos? Lembras-te?
Não fomos feitos de teatro, e muito menos de poesia. Fomos tardes vazias. Noites sem luz. Silêncios de agonia. Lucidez absurda. Desejos de loucura. Fomos capazes de atravessar paredes. Fomos capazes de saltar o abismo. Fomos capazes de morrer e renascer vezes sem conta.
Mas quando me pediste para nos abandonar soube que era o fim. Quando a tua mão largou a minha e ela deixou de ser tua. Já nada de ti era meu. Já nada de mim era teu. Lancei um derradeiro olhar de despedida. Não de ti. De mim mesma.
Continuo a andar. A tua imagem não me sai da cabeça. Tropeço em ti. Fazes-me perder o equilíbrio. Quase que me vejo no chão. Não caio - recupero o balanço - sigo caminho.
Quando te vir outra vez passo por cima de ti. Grito-te com os meus olhos que a mim ninguém me rouba o chão.
Agora sou de Ninguém. Acabei. Cheguei ao fim. E enfrento todo o vazio e solidão.

Elevador de Santa Justa
Lisboa 2008
Mariana Costa
2 comentários:
Fez me lembrar uma célebre frase:
- Quem és?
- Ninguém!
É com muita felicidade que constato que estas são as mulheres do amanhâ.
Cheias talento, sensibilidade e beleza de coração.
É pena que este país seja quase de 3º. mundo, se assim não fosse não se dava ao luxo de desperdiçar estes talentos.
Continua Merry
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