terça-feira, 1 de abril de 2008

Este filme não é para Idiotas

Quando um homem encontra no meio do deserto do Texas um grupo de carrinhas repleto de mortos, onde existe um carregamento de heroína e dois milhões de dólares em dinheiro vivo, a acção começa.
Ou se afirmava como um cobarde e nem verificava se havia pessoas vivas naquele mar de sangue ou era corajoso e enfrentava a realidade. Assim foi. Mas quando percebeu o dinheiro que ali estava envolvido (e aqui está a prova de como a ganância é mais forte que os princípios base da vida) até é capaz de recusar àgua a um moribundo, deixando a porta da carrinha aberta para que os lobos o pudessem comer.
Ao se apoderar da pasta com o dinheiro desencadeia uma autêntica caça a si próprio. Perseguido por todos os lados e por várias personagens, existe um, o pior de todos, que é capaz de decidir a vida ou a morte de um ser humano com a moeda. Este psicopata anda de assassinato em assassinato, não deixando escapar ninguém, e evoca-se como se fosse a Natureza e apenas estivesse a cumprir um papel que lhe foi atribuido.
O xerife, já velho e desactualizado, tenta evitar este massacre não conseguindo, pois tem noção do inevitável destino: o facto de não haver mais nada a fazer. Desajustado neste mundo e não sendo capaz de lidar com a violência que o assombra, desiste. 
Esta narrativa dá-nos noção da evolução do mundo, da passagem alucinante do tempo e de como muitas vezes é impossível acompanhá-lo. Daí que se chame: "No country for old men". 

É um filme para pensar (o que talvez possa ser difícil para alguns). Evocando uma metáfora da vida. Existem dois tipos de filmes: os que vemos para estarmos entretidos e aqueles que são feitos para pensar. Este é definitivamente um labirinto que faz pensar.



"Ela soluçava. Abanou a cabeça. 
E todavia, embora eu te pudesse ter dito de antemão como é que tudo isto iria terminar, achei que não era excessivo proporcionar-te um derradeiro lampejo de esperança neste mundo, para te alegrar o coração antes que tombe o véu, as trevas. Compreendes? 
Oh, meu Deus, disse ela . Oh, meu Deus. 
Sinto muito. 
Ela olhou-o pela derradeira vez. Não és obrigado, disse. Não és. Não és. 
Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar, no máximo. Sem grande utilidade, neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes? 
Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo. 
Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro."

excerto do livro "No country for old men", Cormac McCarthy.


Mariana Costa

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