sábado, 2 de fevereiro de 2008

Perdão

A última vez que te vi nem tiveste a coragem de me olhares nos olhos. Não tiveste a coragem de me enfrentar. Soube que mudaste de casa, de telefone e de coração.
A última vez que entrei em tua casa para ir buscar as minhas coisas deparei-me com um espaço vazio, onde havia apenas uma mesa com a minha roupa dobrada, o meu perfume derramado e as minhas cartas espalhadas pelo chão. Mas estavam rasgadas, assim como todas as nossas fotografias. Isso magou-me mais do que tudo. Tiveste coragem para rasgares as nossas lembranças, para destruires o que restava de nós, mas não conseguiste olhar para mim e dizer_ "acabou". És um cobarde.
Apunhalaste-me pelas costas, cortaste-me aos pedaços e deixaste-me a morrer. Porque não conversaste comigo, não me explicste o que se passava? Tinhas de me destruir assim? Silenciosamente? Preferia que me tivesses dito a verdade, em vez de a oprimires. Preferia que me tivesses atirado à cara, no preto e no branco o que sentias. Tinha sido mais fácil. Deixava-me de ilusões e de sonhos e aterrava na realidade, num mundo onde estamos distantes e separados por um vácuo negro e obscuro no qual penetramos os dois, apesar de estarmos divididos por uma parede indestrutível e inquebrável. Tornamo-nos em dois estranhos, em duas sombras, em duas máscaras abandonadas e irrecohecíveis. Já não sabemos quem somos, o que fizemos e desejámos. Magoamo-nos mutuamente e tranformamo-nos em seres insensíveis e impiedosos.
Deviamos perdoar-nos um ao outro, seguirmos em paz com a nossa vida. Não digo esquecermos as decisões e as escolhas que tomamos. Digo deixarmos o assunto de parte, ficarmos livres e voarmos sobre o mundo.
Livres, livres, livres.
Conseguirei perdoar-te?
Conseguirás perdoar-me?
Não sei. A dúvida instalou-se em mim e estou aterrada e apavorada. Vivemos o mais bonito dos sonhos, mas estragamo-lo e rapidamente tornou-se num pesadelo.
Quero esquecer. Preciso de esquecer. Tenho de deixar as memórias para lá de mim.


Arranquei as cartas do chão, lavei-o tirando-lhe o cheiro da minha essência e peguei na minha roupa. Corri para o carro e o mais velozmente possível fui para a praia.
Lancei as cartas ao mar, queimei os vestígios materiais que restavam de nós. Apenas guardei o frasco de perfume que enviei para casa dos teus pais, juntamente com uma carta a dizer que ias entender.
Neste momento percebi.
Não me interessa se não me perdoaste. Sei que da próxima vez que te vir posso e devo cumprimentar-te. Devo lançar-te um sorriso e seguir o meu caminho.
Espero que sigas também.

Estás perdoado.



Mariana Costa

1 comentário:

Anónimo disse...

Que lindo e que profundo. Como tu escreves bem, os teus textos deixam-me arrepiada.
Uma menina a escrever desta maneira, vais longe.
Muitos parabens, um beijinho.