Peguei na minha mala e fui-me embora. Deixei-te no sofá com a cabeça entre as mãos. Nunca pensei que fosses capaz de gritar comigo daquela maneira e de me abanares até eu cair.
Foste longe de mais, foste de uma dureza que me rasgou. Sou apenas e unicamente um ser humano. Não sou nem nunca serei um máquina, um clone sobre o qual tens completo e total controlo. Esquece. Não consegues.
Notei logo na tua voz quando me telefonaste: "Vem jantar comigo hoje. Tenho saudades dos nossos serões." Fui, como verdadeira amiga que sou. Fui, porque já não te via há quase 3 anos. Fui, cheia de uma esperança penetrante. Fui, pensando que iamos ser iguais a antes, pensando que estavas o mesmo como mostravas nas cartas que estão guardadas na minha mesa de cabeceira e que trocamos ao longo desse tempo.
Abraçamo-nos com uma ternura eterna. Conversámos, rimos e mantivemos sempre o nosso vinho à nossa frente. Lembraste-te de comprar esse vinho maravilhoso que bebemos pela 1ª vez quando fizeste 18 anos. Por fim, caímos no sofá e iniciamos conversas filosóficas.
Estás diferente. Já não tens os mesmos ideais que eu, já não tens os mesmos interesses, já não tens aquela sensibilidade que nos unia e nos transformava num ser único e especial. Tudo isto achaste tu de mim. Não percebo.
A tua alma está fria e crua, não tens amor nem carinho para dar. Está vazia. Disseste-me tu tudo isto, sem medo e sem pudor. Se estivesses igual tinhas tudo receio e angústia de me dizer isto, tal como eu tive. Medo de te magoar, de estar a ser injusta, de estar errada. E tive coragem de te explicar, de te dizer o que achava porque os amigos dizem a verdade independentemente do que lhes custe. Disseste-me que eu não era tua amiga, que nunca tinha sido e que tudo o que tinhamos vivido era pura ilusão e mentira. Atiraste-me uma bomba atómica, tiraste-me o ar e deixaste-me sem respiração.
Mais vale que me mates já, agora, sem medo! Enfrenta-me e mata-me! Mata-me...
A verdade é que já me mataste com as palavras que disseste. Afogaste-me, enterraste-me viva, tiraste-me a luz, o som e abandonaste-me na escuridão. Não vejo, não sinto não oiço. Mataste-me. Mas não foi fraca a tua acção, foi forte. Esmagaste todos os pedaços de mim. Rasgaste-me e deitaste-me no lixo a apodrecer. Doi. Doi tudo desde a mais ínfima veia ao mais superficial osso. Doi desde os mais básicos movimentos aos mais elaborados pensamentos.
Ressuscita-me e diz que não é verdade. Devolve-me a vida e tira-me esta dor. Dá-me um abraço e diz que vai ficar tudo bem. Reconstrói cada pedaço do meu ser como se fosse um puzzle de infinitas peças.
Dá-me uma luz, dá-me um sinal, lança-me um sorriso. Dá-me a tua mão e puxa-me deste terror, mas ajuda-me ou então prefiro que me deixes a morrer.
Mariana Costa
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