Querida avó,
Antes de mais quero deixar aqui bem explícito que não é de ânimo leve que te escrevo esta carta. É fruto de muitas folhas rasgadas, de muita reflexão e de muitas horas de deambulações. É primeiro que tudo um suspiro que espero que oiças e acolhas como se estivesses aqui à minha frente.
Foi com muita felicidade que terminei o 12º ano e com muita tristeza que não te pude abraçar no último dia. Desde pequenina sempre achei que estarias aqui quando fizesse os exames, quando me fosse candidatar à Faculdade, quando fizesse 18 anos e quando esta etapa da minha vida terminasse. Mas não estavas. E penso nisso todos os dias sem excepção. Gostava tanto que me visses agora... Gostava que, pelo menos uma vez, pudesses ver no que me tornei, o que cresci e o que vivi.
Acredito que sabes que o que sou hoje a ti o devo acima de todos. Não é à minha mãe ou ao meu pai. Também não é à minha tia que adoro e que apesar de tentar preencher o teu vazio não consegue. É a ti. Sinto que te conheci, mas queria mais, muito mais. O Tempo não nos deu tempo para nos conhecermos ainda melhor. Quando adoeceste descobri o Silêncio dentro de mim. Não sabia que o tinha. Emergiu também o Medo. Porque fui eu que te levantei do chão quando desmaiaste. Porque era eu que sabia todos os comprimidos que tinhas de tomar todos os dias. Porque era eu que fazia de tudo para te aquecer quando tinhas frio. Porque chorei quando percebi que não era capaz de te ver a sentir mal todos os dias. Porque não deixei que visses as minhas lágrimas quando percebi pela primeira vez na minha vida que não conseguia tomar conta de ti sozinha. Ainda oiço as últimas palavras que me disseste : "Vai, mas volta depressa porque preciso muito muito de ti." Foi a última vez que te ouvi falar ou que te vi. Mas nesse momento senti um aperto no coração e soube que alguma coisa ia acontecer.
Recusei ir ao teu funeral e nunca fui ao cemitério ver-te. Muito insistiram comigo mas não deixei que essa fosse a última imagem que tinha tua.
Ainda hoje sofro com esse Natal, por isso deixou de ser uma época feliz para mim. No entanto, já estou a recuperar. As minhas feridas estão a sarar. A pouco e pouco o sangue vai estacando e secando. Isso devo a mim própria, mas também a quem me apoiou. Orgulho-me de te ter chegado a apresentar os meus melhores amigos. Acho que gostarias de saber que estiveram aqui sempre que precisei, para todos os momentos, a qualquer hora. Foram eles que me distraíram e ajudaram a esquecer a dor que sentia.
Agradeço-te por me teres ensinado a escolher tão bem as pessoas com quem me dar e por me teres mostrado o mundo dentro dos livros e das palavras, o bem e o mal, o escuro e a luz.
Para terminar esta carta, devo dizer que ainda hoje sinto a tua falta. A Saudade ainda não voou. No entanto, faço questão que saibas que cresci. Apesar de não me puderes dar a mão, fizeste-me crescer. Vivi sensações e pensamentos que não desejo a ninguém, mas apesar de tudo ajudaram-me a ser uma pessoa melhor.
Despeço-me sabendo que me acompanharás em todas as etapas da minha vida e que a minha felicidade é a tua.
Serei sempre, sempre a tua Marianinha.
5 comentários:
Está lindo, o texto em suspenso. Arrepiante
Maravilhoso :)
Mariana
Acredita que a tua avó partilhou e acompanhou todo o teu percurso até hoje e continuará a acompanhar.
Quando olhares para o céu e vires a estrela mais brilhante, lembra-te que é ela que ilumina o teu caminho.
A pessoa maravilhosa que tu és, o coração enorme e o talento que tens será sempre motivo de orgulho para quem te ajudou a crescer.
Já uma vez escrevi, que dava graças a Deus por o meu filho ter uma amiga como tu e continuo a dar.
Ele escreveu um dia que TCM era a amizade mais pura e sincera que o Sagrado tinha conhecido e eu assino por baixo.
Desejo que essa amizade nunca desvaneça, estejam vocês onde estiverem.
Gosto muito ti
Ana Seixas
Olha, eu não sei bem o que te dizer. Já perdi muita coisa na vida... mas não pela morte.
Posso dizer que lamento muito (e lamento mesmo), mas acho que já deves ter ouvido isso muitas vezes não?
Apenas sei que há momentos em que o silêncio vale mais que as palavras. Por vezes, a presença, um olhar, um sorriso basta. E eu estarei aqui para ti, se alguma vez precisares.
Pelo que conseguir perceber através da carta, a tua avó era uma pessoa maravilhosa. Tomara todas as avós fossem assim tão bondosas. Se calhar, viviamos num mundo bem mais tranquilo.
Beijinhos
Nunca é de ânimo leve nem fácil escrever a quem não está...expôr a saudade e a dor da ausência...falar de nós nos outros e dos buracos que ficam quando partem...porque é disso que se trata quando se fala em partidas, em morte...e sabes que como tudo isso da morte é assunto dificil, tabu, para abordarmos com naturalidade...e como dói cada palavra, para ti avó, para mim mãe... e sei que pensei nela no dia em que voei para ver as notas no teu liceu...porque vivi momentos dificeis nos meus 18, 19, 20, 21. 22, 23...cada vez que via uma pauta com "Não Admitida"num sonho de que tive que abdicar...mas felizmente surgem outros...e outros que nem sabia que existiam...e isso devo-o a mim e à minha teimosia...
e claro que me comovi quando pensei em ti como uma menina universitária...com orgulho que seria sentido tb pela avó...e apesar de ir pouco ao cemitério...porque para mim não é ali que está...nem nunca será...mas isso é muito pessoal, muito intimo até...e a avó nunca gostaria de estar fechada em caixas...eram mais salões com lustres e sedas e musicas e livros, e arte e beleza...e a sua inmensa generosidade e sabedoria que a transformou numa estrêla brilhante de certeza, a usar chapéu e Estée Lauder...e as coisas que sabemos que ela gostava...e que nos soube dar, mas é esse sentido de generosidade de olhar para além...do que se vê...que ficou na pele...e no coração...
por isso estará sempre contigo e comigo...
como a minha avó que perdi aos 18 anos nunca deixou de fazer parte da minha existência, dos passos, trambolhões, e passeios que fiz...ao longo da vida...
a morte faz parte da vida...e foi natural...o percurso é assim...vamos ficando mais velhos, mais fracos, doentes...enquanto os outros crescem, nascem bébés, viajam, casam-se...e a velhice existe...e ter tido uma avó já foi óptimo...e teres uma mãe, um pai e uma familia que te acompanha é uma benção...
e amigos...
e o mar ao longe...muito azul...
e o mundo inteiro à tua espera...
já tive 18 anos...e acho que ainda tenho...com mais os tais muitos que fazem ir ao cabeleireiro...
e a avó estará sempre a envolver-te com o seu abraço quentinho...
e para mim tives-te 20 a Português...
Mãe
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