Nadamos pela vida intercalando as respirações à superfície com a força com que somos puxados para baixo. Com o movimento e vontade voltamos ao de cima, e aí voltamos a percorrer o nada seguindo apenas as correntes. Deixamo-nos ir.
Quando nos sentimos a afundar permanecemos murchos, sem electricidade suficiente para recuperar. O azul do mar transformou-se no cinzento do cimento e o único desejo que temos é de fechar os olhos e dormir. Adormecer para acordar numa praia dourada, rodeados do belo e do bom. Mas na realidade isso nunca acontece, é ilusão. Quando regressamos à superfície temos de restabelecer forças e continuar a lutar. E este ciclo é, agora sem metáforas, o que define o ritmo da vida. Umas vezes estamos bem, pensamos que temos tudo o que queriamos, mas depois aquilo já não nos preenche, já não nos dá sol, e assim continua o nosso caminho em busca do que pensamos que queremos. Sim, porque tudo isso nunca irá satisfazer completamente o nosso ideal de felicidade, de beleza. Enganamo-nos a nós próprios com o que pensamos ser a perfeição, só que esquecemo-nos que se estragam, partem, apodrecem, engelham... e finalmente terminam.
Só que o ser humano não pode evitar a procura da perfeição e do eterno, e por isso esta roda não tem fim: iludimo-nos e mais tarde, desiludimo-nos. Desta maneira, tudo parece tão simples: querer, ter e perder. O problema está nos ingredientes adicionais. A ansiedade, a responsabilidade (e a falta desta), e os outros porque o Homem não vive sozinho. Mas acima de tudo o medo. Principal condicionante das acções humanas. É o medo que nos impele para actos precipitados. É ele que nos leva a colocarmos uma capa invisível e impenetrável. É ele que envolve a nossa mente e a preenche de pensamentos obscuros. Até medo de crescermos nós temos. Já Sartre dizia que todos os homens têm medo e que quem não tem medo não é normal, e eu que não sou filósofa e que me resigno à minha insignificância como cidadã atenta e observadora do mundo, concluo que muitas vezes há uma grande confusão entre o facto de ter medo e o ser corajoso. A coragem nada está relacionada com o medo. Quantos alemães não foram obrigados a aceitar ideais com os quais não concordavam? Quantos deles, por medo não por coragem, tiveram de fechar milhares de crianças inocentes em camaras de gás e esperar que elas morressem? Por medo de serem eles mortos e das suas famílias serem torturadas.
Há depois a inteligência, que para mim somos nós que desenvolvemos. Traduz o que somos, queremos ser e fazemos. E assim, aprendendo constantemente, tornamo-nos seres conscientes da imensidão do mundo, mesmo que o que nele decorre não dependa dos nossos valores, mas sim da sua união com as nossas escolhas.
E se há algo que sempre me revoltou é a ignorância que a maioria das pessoas não procura ultrapassar. Não são as roupas que usamos que nos transformam no que somos. Não é a maneira como penteamos o nosso cabelo, nem os acessórios que usamos. Não são as notas que temos que nos espelham. Não é a beleza estereotipada que nos foi imposta que mostra à sociedade quem realmente somos. São sim, as pessoas com quem nos damos. Com quem partilhamos a nossa vida. Durante a nossa adolescência, muitas vezes nos perguntamos porque os pais tanto querem saber quem são os nossos amigos. A verdade é que eles têm toda a razão no que dizem. É durante este período da nossa vida que mais experimentamos, e não é com os nossos pais que o fazemos, é com os amigos. E na ingenuidade da idade damos esse nome a todas as pessoas com quem temos pontos em comum. Quando crescemos apercebemo-nos que amigos amigos há poucos. Os que pensamos serem verdadeiros enganam-nos e os outros, os mais importantes são incapazes de o fazer. Os amigos dizem que nos amam, apesar da palavra se ter tornado banal. Os meus amigos contam-se pelos dedos, mas já não cabem nas minhas mãos as felicidades que me trouxeram.
Infelizmente, ainda existem muitas pessoas convencidas que serão e existirão pelo que possuem. E também eu gostava de ter imenso dinheiro e poder fazer tudo o que me apetecesse, mas a verdade é que eu tenho algo que são raros os que alcançam. Eu tenho e partilho um sentimento que não tem preço, não tem distância, não tem idade. Estou permanentemente nas minhas Ilhas Afortunadas, "terras sem ter lugar", lugar do não-espaço e do não-tempo, que apenas se encontram pelo som das ondas. Não sei se foi sorte, mas destino sem dúvida foi, porque encontrei este lugar paradisíaco onde me refugio constantemente. A isto chamo, talvez já conheçam o nome mas dúvido que saibam o seu significado, amizade. É maior que a vida, que a morte, e liberta-nos completando aquele bocadinho da nossa alma que falta. É com ela que mergulhamos sem medo no mar da vida.