sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Passos leves, vozes do além

O portão abriu-se sem avisar, enferrujado como estava o barulho que fez riscou levemente os meus ouvidos. Entrei com medo do que ia encontrar, com receio de ter de fugir.
Fecho os olhos e atravesso o jardim. Parece que conheço o caminho e deslizo por entre as rosas sem me picar. À medida que avanço o que deixo para trás vai ganhando cor. Afinal o portão é verde, as rosas brancas e a relva brilha. Alcanço a porta, que em silêncio se vai pintando de escarlate, entro e dou conta que tudo esta coberto de lençois brancos. Nunca pensei sentir este frio cortante que sinto agora, vou congelando enquanto dispo os movéis, e os panos que flutuam no chão são tantos que o ar fica coberto de pó. Não consigo respirar, tenho de abrir uma janela e a tropeçar por entre nuvens brancas rasgo as cortinas, mas a janela está perra, não abre. Sufoco, agarro numa garrafa e atiro contra os vidros que se desfazem como pedaços de espelho. Sinto o ar varrer a morte. E a luz... Ah a luz! Onde toca, transforma. Olho para trás e vejo uma sala diferente. Reluzente, limpa sem vestígios do que alguma vez fora. 
   Continuo o meu caminho. Agora, passo a passo sei que estou cada vez mais perto. A madeira range como se falasse comigo. Parece que oiço música mas não, já é imaginação.  Já é o meu desejo de voltar atrás no tempo e poder dançar tudo o que não dancei. Já é a vontade de deixar de saber o que sei. Já não interessa onde estive, com quem e quando, apenas importa que já não está aqui quem eu queria. Não tenho agora maneira de me libertar sem alguém que me oiça. Quem agora diz que me escuta não é quem eu quero, e não toma atenção na verdade. Ouve, porque é correcto. Preferia que me deixassem só para sofrer sem magoar os outros, seria melhor. Poderia assim, dizer a Deus tudo o que nunca disse. Seria talvez a única coisa certa que alguma vez fiz. Mas queria que Ele me respondesse e dissesse ao meu ouvido e não ao mundo, que apesar de muitas vezes não o ouvir ele sabe que eu sonho com Ele e que tento comunicar. Gostava que me desse um sinal infimo da sua existência. Gostava que me desse esperança de que é possível sarar a ferida. 
   Secalhar já estou a delirar de tanta emoção. Ao estar aqui, nesta casa, os sentimentos emergiram do fundo do coração tão repentinamente que sinto lágrimas cristalinas a escorrerem dos meus olhos. Os olhos são o espelho da alma. O que não mostramos aos outros é lá que o podemos encontrar. Neles transparece tanto a verdade como a falsidade, e neste momento em mim apenas seria vista saudade e nostalgia. 
  Confissões secretas é o que isto é. Conversas à porta fechada, sem julgamentos e questões. Confissões de quem mantém tudo cá dentro e não transborda. Confissões de quem tem o mundo a palpitar e a imortalidade na alma. 

  Mariana Costa

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