quarta-feira, 21 de maio de 2008

Desorientada

Risco, apago, escrevo, apago. Fiz planos fantásticos que se esbatem com o levantar da persiana e suspiro como sempre depois de respirar fundo.Desisto. Vou dormir com as historias encalhadas na minha cabeça. 
Ao levantar, sento-me com as imagens cheias de perfume enquanto tento encontrar a forma de encurralar cá dentro tamanhas vontades que me fazem sufocar na vontade de voar. Retenho a vontade de dizer ao mundo todas as coisas escritas por dentro e contento-me com o sabor da passagem dela que se embrulha no fugaz turbilhão dentro do estômago enquanto o peito parece saltar e seguir atrás do seu sorriso. 
Não consigo explicar a mim própria o que não chora em palavras e quando fugir as imagens em câmara lenta parece ser mais difícil que acordar, fico adormecida. O olhar não sobe, os olhos não brilham, e pouco mais há a fazer, a música grita sem ser ouvida e a voz não sabe dizer o que na garganta aperta. Então que há a fazer? Dias e dias a vestir sorrisos roubados, a viver histórias alheias, a sonhar acordada, a dormir por dormir…e quando chega a altura de parar, quando chega a hora de pensar sem fugir em ideias forçadas, vejo claramente que falta o sabor de ser. Queria rasgar os dias que não são meus, queria saber de que sabor são as historias, queria saber a cor do quente, queria amarrotar as palavras e dizer algo certo, queria não sentir tanto ou não sentir que falta algo por sentir, queria não querer nada disso, queria querer só por querer ou talvez só por não ter, queria saber ou então não conhecer, só queria ser e poder ser e ser sem ser algo. 

Mariana Costa, com vontade de escrever mas desorientada

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O inexorável

Sorri. Para a mãe, o pai e os irmãos. Para os amigos. Para o mendigo. Para a senhora que te atendeu na loja. Para o homem do metro. Para a criança que brinca com as flores. Para o casal que se passeia na rua.
Olha. Vestidos, maçãs mordidas, telefones, fios de cabelo, cigarros apagados, cartas rasgadas, cachecóis, esculturas, coisas roxas, fraldas, sangue, óculos, escovas de dentes, iogurtes, sapatos, facas, restos de vozes, pão acabado de sair do forno, postais, chaves, bóias de plástico amarelo, portas de carros, lápides, cinzas, cartazes, lenços, aviões e pistas sem fim.
Diz. "Parabéns", "os meus pêsames", "desculpa", "bom trabalho", "boa viagem", "até amanhã","amo-te", "adeus", "olá", "obrigada", "estás bem?".
Ouve. Risos, orquestras, explosões, passos, chapinhar, apitos, vento, árvores, carros, chaves, saltos altos, abelhas e ondas do mar. 
Agarra. Os detalhes do primeiro encontro. Informações sobre roupas, tons de voz, coisas ditas, sublimações, desejos insinuados, mal entendidos, disparates, falas adocicadas para seduzir, informações em exagero, omissões para obter a simpatia, a perda dos sentidos, o girar da cabeça e o desvio da atenção, cegueira e lapsos.
Conhece. Rosas, ramos, campos, marias, clarices, calvinos, rodrigues, assis, adélias, lúcias, leminski, ramalho, paulo, mateus, lucas, marcos, provérbios, salmos, Bach, sílvia, chico, cecília.
Detesta. Trânsito, dengue, hospital, políticos, casamento, plástico, frieira, textos mal escritos, dívidas, culpa, funcionários, perfume barato, mosquitos.
Age. Sopros, sustos, soluços, lapsos. Pontos do tricô e o cachecol perdido. Choque. Gritos. Engasgo. Levantar. Arco-iris. Convulsão, morte súbita, parto prematuro, cancro no fígado, milagre. 

Sente. Um calor repentino, sangue escorrendo e dor nenhuma.