quinta-feira, 17 de abril de 2008

au revoir

Com a força de mil sóis a explodir, o teu olhar cruzou o meu e aí soube que era para sempre. 
As lágrimas borbulhavam no canto dos meus olhos como se fossem fontes sem fim. 
Era suposto não olharmos para trás assim que nos separassemos. 

Conheces-me? Lembras-te de quem sou?
Sou aquela que suplicou que agarrasses e trincasses o momento. Sou aquela que te abraçou quando tudo avançava depressa demais e tu não aguentavas. Sou aquela que tirava as pedras do teu caminho, mas fazendo com que pensasses. Sou aquela que te consegue ver numa tarde de nevoeiro cerrado. Sou aquela que sabe o que sentes quando as palavras rodopiam nos teus lábios e dão voltas eternas na tua cabeça. Sou aquela a quem deste todos os sorrisos de uma humanidade que arrastas com a tua sombra. 
E nós o que fomos? Lembras-te?
Não fomos feitos de teatro, e muito menos de poesia. Fomos tardes vazias. Noites sem luz. Silêncios de agonia. Lucidez absurda. Desejos de loucura. Fomos capazes de atravessar paredes. Fomos capazes de saltar o abismo. Fomos capazes de morrer e renascer vezes sem conta.

Mas quando me pediste para nos abandonar soube que era o fim. Quando a tua mão largou a minha e ela deixou de ser tua. Já nada de ti era meu. Já nada de mim era teu. Lancei um derradeiro olhar de despedida. Não de ti. De mim mesma. 
Continuo a andar. A tua imagem não me sai da cabeça. Tropeço em ti. Fazes-me perder o equilíbrio. Quase que me vejo no chão. Não caio - recupero o balanço - sigo caminho.
Quando te vir outra vez passo por cima de ti. Grito-te com os meus olhos que a mim ninguém me rouba o chão.
Agora sou de Ninguém. Acabei. Cheguei ao fim. E enfrento todo o vazio e solidão.

                                                                          Elevador de Santa Justa
                                                                            Lisboa 2008
Mariana Costa
 

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Pequenos nadas

Desci a rua. Numa luz imaculada, com um toque de cetim, passaste num carro mesmo à minha frente. O sinal ficou vermelho. Tal como eu estavas parado. Ficamos os dois envolvidos numa nuvem branca que nos consome, que nos aperta e estrangula. Nada mais existia.
Olhaste nos meus olhos. Olhei nos teus. Um azul gelado transformou-me numa estátua. Já não te via desde aquela noite em que me abandonaste. Sim, tu que dizias ter virado a página, ter começado uma vida nova. Mas eu percebi que não estava tudo bem. Meu querido, esqueceste-te que te conheço como se fizesses parte de mim, e na verdade fazes. És um pedaço que me compõe, que me ajuda e permite crescer. Não me deixes na ignorância. É a única coisa que te peço. Se não falares, se deixares a tua alma cerrada, deixas a minha. Porque eu sou tu, e tu és eu. Somos o reflexo transparente um do outro. Será que ainda te lembras?
Não sei. Sinto que há vezes em que és azeite e eu sou àgua. Não somos um todo. Deixa-me ajudar-te. Não estás bem e isso mata-me por dentro. Esses nadas que não dizes, esse "nada" que dizes, essa indiferença que carregas. Todos os nadas que abandonas e devias agarrar, são meus também. A tua angústia, o teu medo, a tua frieza dão-me vontade de te encostar à parede e não te deixar sair até largares os pequenos nadas que te dilaceram. Chora, meu bem. Nunca te disseram que chorar é bom? Deita as tuas lágrimas na minha mão até elas formarem uma fonte. Eu aguento não te preocupes. Suporto o mundo inteiro por ti. Morro por ti. O murmúrio do teu sofrimento chama por mim. Deixa-me acolher-te, dar-te um beijinho de boa noite e dizer que vai ficar tudo bem.
Nunca te esqueças que a vida passa por nós como uma rajada de vento e há pessoas que vão e vêm. Mas nós seremos sempre um do outro. Na terra, no mar ou no ar. Na eternidade e no além. Uma amizade não desvanece assim. É mais forte que uns nadas que separam o teu sorriso do meu.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Este filme não é para Idiotas

Quando um homem encontra no meio do deserto do Texas um grupo de carrinhas repleto de mortos, onde existe um carregamento de heroína e dois milhões de dólares em dinheiro vivo, a acção começa.
Ou se afirmava como um cobarde e nem verificava se havia pessoas vivas naquele mar de sangue ou era corajoso e enfrentava a realidade. Assim foi. Mas quando percebeu o dinheiro que ali estava envolvido (e aqui está a prova de como a ganância é mais forte que os princípios base da vida) até é capaz de recusar àgua a um moribundo, deixando a porta da carrinha aberta para que os lobos o pudessem comer.
Ao se apoderar da pasta com o dinheiro desencadeia uma autêntica caça a si próprio. Perseguido por todos os lados e por várias personagens, existe um, o pior de todos, que é capaz de decidir a vida ou a morte de um ser humano com a moeda. Este psicopata anda de assassinato em assassinato, não deixando escapar ninguém, e evoca-se como se fosse a Natureza e apenas estivesse a cumprir um papel que lhe foi atribuido.
O xerife, já velho e desactualizado, tenta evitar este massacre não conseguindo, pois tem noção do inevitável destino: o facto de não haver mais nada a fazer. Desajustado neste mundo e não sendo capaz de lidar com a violência que o assombra, desiste. 
Esta narrativa dá-nos noção da evolução do mundo, da passagem alucinante do tempo e de como muitas vezes é impossível acompanhá-lo. Daí que se chame: "No country for old men". 

É um filme para pensar (o que talvez possa ser difícil para alguns). Evocando uma metáfora da vida. Existem dois tipos de filmes: os que vemos para estarmos entretidos e aqueles que são feitos para pensar. Este é definitivamente um labirinto que faz pensar.



"Ela soluçava. Abanou a cabeça. 
E todavia, embora eu te pudesse ter dito de antemão como é que tudo isto iria terminar, achei que não era excessivo proporcionar-te um derradeiro lampejo de esperança neste mundo, para te alegrar o coração antes que tombe o véu, as trevas. Compreendes? 
Oh, meu Deus, disse ela . Oh, meu Deus. 
Sinto muito. 
Ela olhou-o pela derradeira vez. Não és obrigado, disse. Não és. Não és. 
Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar, no máximo. Sem grande utilidade, neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes? 
Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo. 
Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro."

excerto do livro "No country for old men", Cormac McCarthy.


Mariana Costa