Passei a vida inteira a tentar compreender-te. Não era compreender, era mais interpretar. Interpretações da tua maneira de beber, de olhar o pôr do sol, de veres o Tejo, de falares. Interpretações de ti, que eu conhecia tão bem mesmo sem te tocar. Contigo aprendi o bom e o mau de um homem, as falhas e as inibições. Gostava de te ver. Mais do que tudo. Ver-te a escolheres o iogurte da manhã, a camisa que vestirias e o relógio que usarias nesse dia. Gostava de ver como encontravas o que precisavas na tua desarrumação, como misturavas t-shirts com camisas de seda, calças de fato com pijamas.
Neste lugar sem espaço, o passado desaba no interior de si próprio. O que agora vejo já não és tu. Agora vejo tudo o que foi, o que poderia ser e o que é. Não te encontro no meu olhar, não estás aqui nestas escadas infinitas que me perseguem. Fujo da chuva que nunca houve, das lágrimas que oiço, para a casa resplandecente da nossa amizade, o único sítio onde estou segura.
Vivi em teorias, rodeada de ideias que me faziam pensar e que (achava eu) me ensinavam a viver. Não sei pensar sem ti. Não sabes amar sem mim. Eramos um do outro. Não o descobrimos. Ficámos subjugados à sociedade em vez de seguirmos os nossos instintos. Sabíamos que a imortalidade é irrelevante e que a mortalidade cintila. Sabíamos e não nos conseguimos encontrar um no outro. Viviamos como se fossemos imortais, mas no fundo sabíamos que não o eramos.
Agora que já não te encontro, peço-te que te concentres na felicidade para que eu possa existir nela contigo. Não te feches em ti próprio. Vive. Vive por mim. Deixa a tua casa de silêncio, não derrames mais lágrimas por mim, não caminhes para a morte, não morras por mim. Oiço o som da morte na tua pele, a penetrar nos teus ossos, a congelar o teu coração. Não deixes: fecha-lhe a porta. Eu sei que custa. Que cada passo que dás recordas o que eu fui. Só tu sabes o melhor e pior de mim. Só tu conheces as minhas mãos, só tu sabias a minha bondade, só não sabias que mudei tudo por ti, porque não conseguia ser-te indiferente.
O meu além eras tu. O meu Deus que perdoava todos os meus pecados. Tu.
Ajudavas-me no que eu não sabia ser. Agora sou puro vapor do universo e já não me posso redimir, já não te posso ajudar como me ajudaste. Vejo-te a olhares as ondas do mar e a quereres mergulhar. Sei queres. Sei que te sentes meio morto, que querias estar a meu lado. Mas fica feliz. Pensa que a minha morte vai aliviar o teu medo de morrer, que se eu morri tu também serás capaz. Não serás é capaz de matar a minha morte. E nem penses nisso, porque agora só vivo em ti e por isso suplico que vivas e que faças tudo o que não consegui fazer.
Mariana Costa