sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Não deixes que ela te leve

Passei a vida inteira a tentar compreender-te. Não era compreender, era mais interpretar. Interpretações da tua maneira de beber, de olhar o pôr do sol, de veres o Tejo, de falares. Interpretações de ti, que eu conhecia tão bem mesmo sem te tocar. Contigo aprendi o bom e o mau de um homem, as falhas e as inibições. Gostava de te ver. Mais do que tudo. Ver-te a escolheres o iogurte da manhã, a camisa que vestirias e o relógio que usarias nesse dia. Gostava de ver como encontravas o que precisavas na tua desarrumação, como misturavas t-shirts com camisas de seda, calças de fato com pijamas.
Neste lugar sem espaço, o passado desaba no interior de si próprio. O que agora vejo já não és tu. Agora vejo tudo o que foi, o que poderia ser e o que é. Não te encontro no meu olhar, não estás aqui nestas escadas infinitas que me perseguem. Fujo da chuva que nunca houve, das lágrimas que oiço, para a casa resplandecente da nossa amizade, o único sítio onde estou segura.

Vivi em teorias, rodeada de ideias que me faziam pensar e que (achava eu) me ensinavam a viver. Não sei pensar sem ti. Não sabes amar sem mim. Eramos um do outro. Não o descobrimos. Ficámos subjugados à sociedade em vez de seguirmos os nossos instintos. Sabíamos que a imortalidade é irrelevante e que a mortalidade cintila. Sabíamos e não nos conseguimos encontrar um no outro. Viviamos como se fossemos imortais, mas no fundo sabíamos que não o eramos.

Agora que já não te encontro, peço-te que te concentres na felicidade para que eu possa existir nela contigo. Não te feches em ti próprio. Vive. Vive por mim. Deixa a tua casa de silêncio, não derrames mais lágrimas por mim, não caminhes para a morte, não morras por mim. Oiço o som da morte na tua pele, a penetrar nos teus ossos, a congelar o teu coração. Não deixes: fecha-lhe a porta. Eu sei que custa. Que cada passo que dás recordas o que eu fui. Só tu sabes o melhor e pior de mim. Só tu conheces as minhas mãos, só tu sabias a minha bondade, só não sabias que mudei tudo por ti, porque não conseguia ser-te indiferente.
O meu além eras tu. O meu Deus que perdoava todos os meus pecados. Tu.
Ajudavas-me no que eu não sabia ser. Agora sou puro vapor do universo e já não me posso redimir, já não te posso ajudar como me ajudaste. Vejo-te a olhares as ondas do mar e a quereres mergulhar. Sei queres. Sei que te sentes meio morto, que querias estar a meu lado. Mas fica feliz. Pensa que a minha morte vai aliviar o teu medo de morrer, que se eu morri tu também serás capaz. Não serás é capaz de matar a minha morte. E nem penses nisso, porque agora só vivo em ti e por isso suplico que vivas e que faças tudo o que não consegui fazer.


Mariana Costa

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

As tuas sombras

Encontro-me num estado impensável.
Encontro-me sem sentido, sem direcção. Numa profunda melancolia que se embrenha no meu ser. Há uma solidão que me consome com uma velocidade atroz.
Tomaste-me como tua e sussuraste no meu ouvido palavras imaculadas. Durante anos encheste a minha cabeça de sensações dóceis e num segundo tiraste-mas com uma ousadia maldita. Maldito sejas tu que me enjaulaste e amarraste durante tanto tempo. Agora soltaste-me, deste-me a liberdade de voar e de espernear. E agora?
Dissipaste-te no brilho dos meus olhos. Ainda espero pelo mumúrio da tua voz rouca dos cigarros. Ainda espero que entres pela porta e perguntes aqueles desvarios do costume.
Não me consigo abstrair do teu perfume que se entranhou na minha pele. Preciso de me abstrair destes sentimentos ondeantes e agonizantes que pairam sobre mim. Tenho ainda a esperança de ver os teus cabelos voláteis mais uma vez. Tentei negar, manter a minha mente numa incógnita desmedida, mas não dá. Continuo sempre num martírio, num tormento. Este flagelo dilacera-me com um ardor turbulento.
Contento-me apenas em saber que mantiveste essa solenidade tão tua, tão difícil de deslindar e de envergar. Diria mesmo impossível. Possuías uma capa infinita, uma mansidão de sombras intransponíveis e opacas. Conseguiste remoer o meu coração até haver necessidade de o amputar. Há um único problema: não consigo. Seria em vão, infrutífero, estaria sempre a tactear e a procurar o pedaço de ti que transplantaste para mim, causando mais impasses do que já tenho. Refinaste a minha alma, tornaste-me melhor. Ensinaste-me o significado da Vida e da existência. Explicaste-me que o Mundo de vítreo não tem nada. Talvez num outrora mundano e libertino entenda o teu jeito de ser que me assombra. Talvez entenda a tua lascívia amarga e a tua volúpia desmedida. Talvez... não sei.

Só sei que quando tudo desabar, o que semeaste em mim vai renascer das cinzas e brilhar.
Por enquanto só preciso que me ajudes a esfaquear estas sôfregas emoções com a tua brandura e não me deixes esgueirar de mim mesma.


Mariana Costa

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Dor

Peguei na minha mala e fui-me embora. Deixei-te no sofá com a cabeça entre as mãos. Nunca pensei que fosses capaz de gritar comigo daquela maneira e de me abanares até eu cair.
Foste longe de mais, foste de uma dureza que me rasgou. Sou apenas e unicamente um ser humano. Não sou nem nunca serei um máquina, um clone sobre o qual tens completo e total controlo. Esquece. Não consegues.
Notei logo na tua voz quando me telefonaste: "Vem jantar comigo hoje. Tenho saudades dos nossos serões." Fui, como verdadeira amiga que sou. Fui, porque já não te via há quase 3 anos. Fui, cheia de uma esperança penetrante. Fui, pensando que iamos ser iguais a antes, pensando que estavas o mesmo como mostravas nas cartas que estão guardadas na minha mesa de cabeceira e que trocamos ao longo desse tempo.
Abraçamo-nos com uma ternura eterna. Conversámos, rimos e mantivemos sempre o nosso vinho à nossa frente. Lembraste-te de comprar esse vinho maravilhoso que bebemos pela 1ª vez quando fizeste 18 anos. Por fim, caímos no sofá e iniciamos conversas filosóficas.
Estás diferente. Já não tens os mesmos ideais que eu, já não tens os mesmos interesses, já não tens aquela sensibilidade que nos unia e nos transformava num ser único e especial. Tudo isto achaste tu de mim. Não percebo. 
A tua alma está fria e crua, não tens amor nem carinho para dar. Está vazia. Disseste-me tu tudo isto, sem medo e sem pudor. Se estivesses igual tinhas tudo receio e angústia de me dizer isto, tal como eu tive. Medo de te magoar, de estar a ser injusta, de estar errada. E tive coragem de te explicar, de te dizer o que achava porque os amigos dizem a verdade independentemente do que lhes custe. Disseste-me que eu não era tua amiga, que nunca tinha sido e que tudo o que tinhamos vivido era pura ilusão e mentira. Atiraste-me uma bomba atómica, tiraste-me o ar e deixaste-me sem respiração.
Mais vale que me mates já, agora, sem medo! Enfrenta-me e mata-me! Mata-me...

A verdade é que já me mataste com as palavras que disseste. Afogaste-me, enterraste-me viva, tiraste-me a luz, o som e abandonaste-me na escuridão. Não vejo, não sinto não oiço. Mataste-me. Mas não foi fraca a tua acção, foi forte. Esmagaste todos os pedaços de mim. Rasgaste-me e deitaste-me no lixo a apodrecer. Doi. Doi tudo desde a mais ínfima veia ao mais superficial osso. Doi desde os mais básicos movimentos aos mais elaborados pensamentos.

Ressuscita-me e diz que não é verdade. Devolve-me a vida e tira-me esta dor. Dá-me um abraço e diz que vai ficar tudo bem. Reconstrói cada pedaço do meu ser como se fosse um puzzle de infinitas peças. 
Dá-me uma luz, dá-me um sinal, lança-me um sorriso. Dá-me a tua mão e puxa-me deste terror, mas ajuda-me ou então prefiro que me deixes a morrer. 


Mariana Costa

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

17

Mais um ano. 


Posso dizer apenas que cresci e que aprendi a lidar com as mudanças que a vida nos proporciona.
A todos os que me ajudaram e me tornaram numa pessoa melhor só tenho dizer uma pequena palavra que devia ser usada muito mais vezes ao longo de todos os momentos, só tenho um eterno e imortal obrigado.


Mariana Costa, agora com 17 anos.


sábado, 2 de fevereiro de 2008

Perdão

A última vez que te vi nem tiveste a coragem de me olhares nos olhos. Não tiveste a coragem de me enfrentar. Soube que mudaste de casa, de telefone e de coração.
A última vez que entrei em tua casa para ir buscar as minhas coisas deparei-me com um espaço vazio, onde havia apenas uma mesa com a minha roupa dobrada, o meu perfume derramado e as minhas cartas espalhadas pelo chão. Mas estavam rasgadas, assim como todas as nossas fotografias. Isso magou-me mais do que tudo. Tiveste coragem para rasgares as nossas lembranças, para destruires o que restava de nós, mas não conseguiste olhar para mim e dizer_ "acabou". És um cobarde.
Apunhalaste-me pelas costas, cortaste-me aos pedaços e deixaste-me a morrer. Porque não conversaste comigo, não me explicste o que se passava? Tinhas de me destruir assim? Silenciosamente? Preferia que me tivesses dito a verdade, em vez de a oprimires. Preferia que me tivesses atirado à cara, no preto e no branco o que sentias. Tinha sido mais fácil. Deixava-me de ilusões e de sonhos e aterrava na realidade, num mundo onde estamos distantes e separados por um vácuo negro e obscuro no qual penetramos os dois, apesar de estarmos divididos por uma parede indestrutível e inquebrável. Tornamo-nos em dois estranhos, em duas sombras, em duas máscaras abandonadas e irrecohecíveis. Já não sabemos quem somos, o que fizemos e desejámos. Magoamo-nos mutuamente e tranformamo-nos em seres insensíveis e impiedosos.
Deviamos perdoar-nos um ao outro, seguirmos em paz com a nossa vida. Não digo esquecermos as decisões e as escolhas que tomamos. Digo deixarmos o assunto de parte, ficarmos livres e voarmos sobre o mundo.
Livres, livres, livres.
Conseguirei perdoar-te?
Conseguirás perdoar-me?
Não sei. A dúvida instalou-se em mim e estou aterrada e apavorada. Vivemos o mais bonito dos sonhos, mas estragamo-lo e rapidamente tornou-se num pesadelo.
Quero esquecer. Preciso de esquecer. Tenho de deixar as memórias para lá de mim.


Arranquei as cartas do chão, lavei-o tirando-lhe o cheiro da minha essência e peguei na minha roupa. Corri para o carro e o mais velozmente possível fui para a praia.
Lancei as cartas ao mar, queimei os vestígios materiais que restavam de nós. Apenas guardei o frasco de perfume que enviei para casa dos teus pais, juntamente com uma carta a dizer que ias entender.
Neste momento percebi.
Não me interessa se não me perdoaste. Sei que da próxima vez que te vir posso e devo cumprimentar-te. Devo lançar-te um sorriso e seguir o meu caminho.
Espero que sigas também.

Estás perdoado.



Mariana Costa