É difícil falar quando ainda estou na penumbra de uma estrada sem fim. Quando o meu saber é ainda um deserto à beira-mar.
Pensar no que me rodeia, ser capaz de descrever o que me foi oferecido, conseguir calcular este espaço onde me encontro, que não é só este, que se movimenta em direcção ao infinito, que vai para lá daqui, que ultrapassa tudo, o presente passado e futuro, um espaço interior que tenta decifrar a Vida. E tudo fica para lá de mim, tudo me trespaça, me transcende, tudo está para lá do que se sabe, está escrito e contado. Está tudo numa roda gigante, que num movimento circular, vai rodando e rodando até surgir uma onda de memórias, definições e suposições que tento compreender. E vou flutuando nessa onda, nessa espuma que me envolve sugando a minha alma tornando-a crua. E ela vai saindo de mim até um raio de sol a aquecer e ma devolver.
Hoje as minhas palavras são apenas sussurros. Depois de deambular no escuro, troquei um olhar com o silêncio que me penetrou. Com o este olhar que me encantou derrubei muros interiores, e o dia estreou a luz. Voltei ao princípio.
O Sol nasceu como origem da Vida, como fonte de Luz, como imagem da ressureição. Imutável, imaterial, espiritual e ritual. Simboliza a consciência, a descoberta de nós próprios como seres únicos e especiais, através dos quais o tempo surge, os relógios tocam, o dia e a noite se reflectem.
E é no silêncio da noite que tudo decorre. Que os sonhos são despertados, que as luzes brilham, que a música tem mais significado. E nesta efemeridade, a Lua floresce frágil, pura, como uma ilusão. É ela que dá luz à imensidão do escuro, que dá destino ao Homem depois da morte. É ela que nos guia no meio da rua quando tudo é preto e branco, e estamos perdidos. É a alma da noite.
A Lua foi-se, o Sol veio e voltei ao sentido retumbante da roda gigante, onde tudo é claro e escuro numa luz de Outono que só nos traz incertezas.
Mariana Costa
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