O Natal tornou-se essencialmente numa época associada cada vez mais a factores comerciais.
Um completo exagero. Se em Dezembro experimentarmos ir a um centro comercial para o cinema, deparamo-nos com milhares de indivíduos nas compras, com sacos, sacos e sacos. Andam a correr, compram sem pensar e multiplicam-se com uma facilidade extraordinária.
E ao longo que este mês de vai desenvolvendo, quanto mais perto do momento, pior fica.
A verdade, é que a população se queixa de que não há dinheiro para pagar todos os bens essenciais à vida, mas quando se aproxima a época natalícia já não problemas financeiros. Compram-se prendas para todas as pessoas que se conhece deixando as importantes de parte.
Compram-se prendas para o patrão, o filho do patrão, a mulher do patrão, o colega de trabalho que em breve vai subir de posto e assim fica-se com o dele (actual).
Compram-se prendas porque fica bem, porque o outro vai dar, porque fica bem visto.
O Natal perdeu toda a sua parte fulcral à conta desta situação. As tradições vão-se perdendo e vão sendo substituídas por outras completamente absurdas.
Felizmente na minha família, a tradição está sempre presente. Somos todos convocados para a casa do costume, o jantar é à mesa, com a loiça "boa" que só se usa em ocasiões especiais, como esta. Inicia-se então uma sequência de iguarias: o caldo-verde (a melhor sopa à face da Terra), bacalhau com batata cozida, ovo e couves (daquelas comidas que se come uma garfada e esta-se "cheio" !) e os doces que são tantos que nunca os provei todos, nem sei os nomes todos de cor.
É importante referir que , tendo em conta que somos uma família um pouco tresloucada, as nossas refeições são sempre iniciadas tardiamente, por volta das 10 e meia, 11 horas.
Portanto, ao contrário da maioria das pessoas, os presentes só são desvendados por volta da meia-noite e meia.
Nesta altura, abrem-se os gigantescos sacos que cada "tia", "primo" traz e desenvolve-se uma sucessão de gritos e saltos à procura da pessoa correspondente ao objecto.
Quem aparecesse ali naquela altura compararia este momento à actividade intensa que é a Bolsa.
Para muita gente o Natal acaba aqui. Para nós não. No dia seguinte (in da house) o Pai Natal deixa as melhores prendas na nossa àrvore e aì vejo a minha irmã numa alegria contagiante a rasgar o papel à velocidade da luz e a dizer: "Mamã, Papá, Mana! Foi mesmo isto o que eu pedi!"... Numa felicidade extrema porque o Pai Natal lhe deixou uma carta (escrita pela minha pessoa com outra caligrafia) , bebeu o leite e as bolachinhas que ela lhe deixou e levou os desenhos feitos especialmente para ele.
Isto é a actividade matinal. À tarde, vamos ao nosso lanche habitual em Sintra (outra família) e à noite dirigimo-nos a casa de uma das "tias" para o perú recheado.
Mas não estás cá tu. Não recebi a tua prenda, não recebi o teu abraço. E de ano para ano isso me marca cada vez mais.
Não está cá o teu sorriso, as tuas frases filosóficas, os teus conselhos, os teus comentários a encorajar.
Não estás cá tu, e isso basta para o meu Natal não estar completo não ser assim tão feliz.
Porque não são as prendas que interessam, são as pessoas que nos acompanham nesta altura. Porque as coisas estragam-se, partem-se e vão para o lixo, são... coisas. As pessoas não. Também de estragam, mas quando cá estão, estão mesmo.
Porque foi neste dia que abandonaste o teu corpo e agarraste a tua alma.
Abandonaste-me na terra, mas abraçaste-me no ar.
Não estás cá tu para me dares um beijinho de boa noite.
Fazes-me falta.
Mariana Costa