Só me dá vontade de escrever quando estou triste. Mas não é uma tristeza qualquer, daquelas que se sente ocasionalmente por razões sem sentido. É um triste que sufoca e afoga o cérebro ao ponto de ficar dormente e criar apenas saudade. Hoje é um desses dias.
Nem é preciso falar porque há coisas em que o silêncio é mais forte. Do que é que eu preciso?
De alguém que fique comigo no escuro, me dê a mão e não diga nada.
Não sou nem nunca fui uma pessoa religiosa, apesar de ter andado na catequese, ter feito a primeira comunhão e ter estado num colégio religioso. Mas tenho fé. Acredito que para lá desta vida há uma melhor. Não digo que seja o Paraíso. Não, isso não. Talvez seja o Eterno onde neste momento a minha avó e o meu tio-avô Zica se reencontraram.
Eu não ia a Linda-a-Velha todos os domingos, mas ele tratava-me como neta e eu como avô. Posso dizer que me orgulho de ter falado com uma pessoa do seu nível intelectual, sempre procurando transmitir-nos a sua infinita cultura e sabedoria.
Generosidade era uma das suas características mais importantes. Acolhia tudo e todos independentemente de quem fosse. Aquela casa estava sempre aberta a amigos e havia sempre lugar para mais um. Herdámos todos isso. Essa capacidade, que agora já está intrinseca na família e que já quando nascemos a temos, de fazer tratar os nossos amigos como família.
Irei sempre lembrá-lo sentado na sua poltrona com o seu gato Sete-Sóis, e nós, todos ordenados por idade, em "filinha indiana" para ir dar um beijinho ao avô e agradecer a prenda de Natal e o ovo da Páscoa a que ele sempre ternurento respondia: "De nada querida". Ou então na sua secretária onde deve ter escrito os seus poemas e estudado toda a Medicina e ninguém podia fazer barulho porque ouvia-se no escritório do avô.
Lembro-me ainda de uma partida que fez no dia de Natal há muitos anos, em que apareceu vestido de mulher e a imitar uma empregada doméstica.
Era assim o Professor Jacinto Simões. Capaz de arrebatar corações, de conversas eternas, de salvar vidas e de mudar o mundo.
Hoje, o meu mundo ficou mais vazio. E é isto que sinto, um vazio infinito apesar de saber que o avô será sempre uma realidade constante, não interessa o tempo ou o espaço.