segunda-feira, 20 de julho de 2009

A Carta

Querida avó,

Antes de mais quero deixar aqui bem explícito que não é de ânimo leve que te escrevo esta carta. É fruto de muitas folhas rasgadas, de muita reflexão e de muitas horas de deambulações. É primeiro que tudo um suspiro que espero que oiças e acolhas como se estivesses aqui à minha frente.
Foi com muita felicidade que terminei o 12º ano e com muita tristeza que não te pude abraçar no último dia. Desde pequenina sempre achei que estarias aqui quando fizesse os exames, quando me fosse candidatar à Faculdade, quando fizesse 18 anos e quando esta etapa da minha vida terminasse. Mas não estavas. E penso nisso todos os dias sem excepção. Gostava tanto que me visses agora... Gostava que, pelo menos uma vez, pudesses ver no que me tornei, o que cresci e o que vivi.
Acredito que sabes que o que sou hoje a ti o devo acima de todos. Não é à minha mãe ou ao meu pai. Também não é à minha tia que adoro e que apesar de tentar preencher o teu vazio não consegue. É a ti. Sinto que te conheci, mas queria mais, muito mais. O Tempo não nos deu tempo para nos conhecermos ainda melhor. Quando adoeceste descobri o Silêncio dentro de mim. Não sabia que o tinha. Emergiu também o Medo. Porque fui eu que te levantei do chão quando desmaiaste. Porque era eu que sabia todos os comprimidos que tinhas de tomar todos os dias. Porque era eu que fazia de tudo para te aquecer quando tinhas frio. Porque chorei quando percebi que não era capaz de te ver a sentir mal todos os dias. Porque não deixei que visses as minhas lágrimas quando percebi pela primeira vez na minha vida que não conseguia tomar conta de ti sozinha. Ainda oiço as últimas palavras que me disseste : "Vai, mas volta depressa porque preciso muito muito de ti." Foi a última vez que te ouvi falar ou que te vi. Mas nesse momento senti um aperto no coração e soube que alguma coisa ia acontecer.
Recusei ir ao teu funeral e nunca fui ao cemitério ver-te. Muito insistiram comigo mas não deixei que essa fosse a última imagem que tinha tua.
Ainda hoje sofro com esse Natal, por isso deixou de ser uma época feliz para mim. No entanto, já estou a recuperar. As minhas feridas estão a sarar. A pouco e pouco o sangue vai estacando e secando. Isso devo a mim própria, mas também a quem me apoiou. Orgulho-me de te ter chegado a apresentar os meus melhores amigos. Acho que gostarias de saber que estiveram aqui sempre que precisei, para todos os momentos, a qualquer hora. Foram eles que me distraíram e ajudaram a esquecer a dor que sentia.
Agradeço-te por me teres ensinado a escolher tão bem as pessoas com quem me dar e por me teres mostrado o mundo dentro dos livros e das palavras, o bem e o mal, o escuro e a luz.
Para terminar esta carta, devo dizer que ainda hoje sinto a tua falta. A Saudade ainda não voou. No entanto, faço questão que saibas que cresci. Apesar de não me puderes dar a mão, fizeste-me crescer. Vivi sensações e pensamentos que não desejo a ninguém, mas apesar de tudo ajudaram-me a ser uma pessoa melhor.

Despeço-me sabendo que me acompanharás em todas as etapas da minha vida e que a minha felicidade é a tua.

Serei sempre, sempre a tua Marianinha.

sábado, 11 de julho de 2009

Melhor é impossível

Estavamos sentadas no sofá a ver televisão na posição habitual.
Até que alguém diz:
- Ainda ontem falei com a (...) e disse que voçês parecem mesmo irmãs."
Olhamo-nos e sorrimos.
- Nunca vos vi discutir, nunca se zangaram de uma maneira muito forte, não há nada que as separe. O que vos une é muito forte. Respeitam-se mutuamente acima de tudo.

Haverá maneira melhor de acabar a noite?

Sim, respeitamo-nos mesmo tendo opiniões contrárias. Mesmo sendo diferentes como somos. Mesmo tendo valores que muitas vezes não correspondem. Mesmo quando as decisões que tomamos levam a caminhos diferentes.
Nunca discutimos e muito menos levantámos as vozes uma à outra. Somos capazes de nos pormos na pele uma da outra. Temos essa capacidade rara que hoje em dia está cada vez mais em via de extinção.